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Quando amar também é saber ir embora

  • Foto do escritor: Mari Armani
    Mari Armani
  • há 21 horas
  • 3 min de leitura

“Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”

 Vinicius de Moraes


Há algo profundamente honesto nesses versos: o amor não precisa prometer eternidade para ser verdadeiro. Às vezes, ele é exatamente isso, uma chama que existe com intensidade enquanto encontra condições para existir. E talvez uma das maiores dificuldades das relações amorosas seja justamente essa: aceitar que nem tudo que é intenso foi feito para durar para sempre.

Falar de relacionamentos amorosos é, no fundo, falar de algo que todos nós já

sentimos: aquela mistura de expectativa, medo, entrega e, às vezes, frustração. Muitas pessoas já viveram o suficiente para saber que amar não é como nos filmes prometeram. Não existe encontro perfeito que resolva tudo, nem alguém que venha preencher completamente o que falta dentro da gente. E, curiosamente, é exatamente aí que começa a possibilidade de um relacionamento realmente bom.

Na vida adulta, a maioria das pessoas já atravessou histórias que marcaram de formas diferentes. Algumas começaram como promessa de permanência, outras como encontros inesperados que, de repente, ganharam significado. Com o tempo, porém, uma experiência se repete: amar não é apenas sentir, mas também sustentar o que esse sentimento desperta quando a idealização começa a cair.

A psicanálise, desde Sigmund Freud, ajuda a compreender esse movimento com mais profundidade. O amor não é apenas encontro com o outro, mas também encontro com aquilo que projetamos nele. No início, o outro costuma ser atravessado por expectativas, desejos e faltas nossas e isso dá ao amor uma força quase inevitável. Mas, com o tempo, essa construção imaginária começa a ceder espaço para a realidade.

É nesse ponto que muitos relacionamentos se tornam difíceis. O outro aparece com seus limites, suas diferenças, sua forma própria de existir. E o que antes era vivido como completude passa a ser vivido como desencontro. Nem sempre isso significa o fim do amor, mas quase sempre significa o fim de uma ilusão.

Jacques Lacan propõe uma ideia que ajuda a sustentar essa compreensão: amar não é encontrar alguém que nos complete, mas lidar com a falta sem exigir que ela desapareça. Isso muda a forma como pensamos os vínculos. Um relacionamento não é bem-sucedido porque elimina conflitos, mas porque consegue existir apesar deles e com eles.

Os dados sociais mostram o quanto isso é desafiador. No Brasil, uma parcela significativa dos casamentos termina em divórcio, e muitos deles duram anos antes de chegar a esse ponto. Isso não fala apenas sobre separações, mas sobre a dificuldade contemporânea de sustentar vínculos ao longo do tempo, especialmente em um contexto em que a lógica da substituição se tornou mais rápida do que a elaboração.

Hoje, é comum a ideia de que, se algo não funciona, talvez seja melhor recomeçar. E, em alguns casos, isso é mesmo necessário. Mas também é verdade que nem todo desconforto é sinal de erro, às vezes é apenas parte do encontro entre duas subjetividades que não se encaixam perfeitamente.

Um relacionamento amoroso maduro não é aquele sem dor, sem conflito ou sem dúvida. É aquele em que existe espaço para elaborar o que acontece, em vez de apenas reagir a isso. É aquele em que o outro pode ser real, e não apenas idealizado.

Mas há um ponto que muitas vezes é evitado e que também faz parte da maturidade amorosa: reconhecer o limite. Nem todo vínculo deve ser sustentado a qualquer custo. Nem toda relação precisa ser mantida quando deixa de fazer sentido, quando se torna apenas repetição de sofrimento, ou quando já não há mais espaço para crescimento mútuo. Saber amar também é saber quando o amor se encerra.


Encerrar uma relação não é necessariamente um fracasso, pode ser uma forma de respeito ao que foi vivido e ao que deixou de ser possível. Permanecer por medo, por culpa ou por dependência pode transformar o amor em prisão. E, nesse sentido, o limite não é ausência de amor, mas reconhecimento de realidade.

Talvez o ponto mais importante seja este: amar não é encontrar alguém que elimine a solidão, mas alguém com quem seja possível compartilhá-la sem desespero. Alguém que não preencha todos os vazios, mas que caminhe ao seu lado enquanto você aprende a lidar com eles.

No fim das contas, um bom relacionamento não é feito de certezas absolutas, mas de escolhas conscientes ao longo do tempo, inclusive a escolha de ficar, e, quando necessário, a escolha de partir. Não por impulso, nem por fuga, mas por lucidez. Porque, apesar de tudo, amar é isso: permanecer enquanto faz sentido, e saber soltar quando a vida pede outro caminho.




 

 
 

Se algo aí dentro pede sentido…
talvez seja o momento de olhar pra isso com mais cuidado.

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