top of page
Buscar

Entre ausência e sentido: Ghosting e suas marcas

  • Foto do escritor: Mari Armani
    Mari Armani
  • há 20 horas
  • 3 min de leitura

“E quando você some sem dizer adeus, fica em mim um eco que não sabe calar.

Não é só sua ausência na sala vazia, é a sua falta inventando maneiras de ficar.”

(autor desconhecido)


Há algo profundamente contemporâneo e ao mesmo tempo muito antigo no fenômeno do ghosting. A pessoa está ali, constrói-se um laço, uma expectativa, uma intimidade em formação… e, de repente, silêncio. Não um silêncio de pausa, mas de desaparecimento. Sem explicação, sem encerramento, sem palavra final.

O que se rompe, nesse gesto, não é apenas uma conversa. É uma narrativa.

Sob um olhar psicanalítico, isso é central: o sujeito humano não lida bem com o

inacabado. Nós precisamos de histórias para organizar a experiência. Quando alguém some, o psiquismo é deixado diante de um buraco narrativo e o que não tem palavra tende a virar angústia.

É nesse ponto que começa o movimento interno mais comum: a tentativa de preencher o vazio. “O que eu fiz?” “O que eu não vi?” “Onde eu errei?” Como se o desaparecimento do outro precisasse, obrigatoriamente, ter uma causa localizada em si mesmo. Essa é uma forma de recuperar controle psíquico sobre o que, na verdade, foi vivido como ruptura unilateral.

Em Sigmund Freud, podemos compreender esse movimento como o esforço do aparelho psíquico de transformar dor em sentido. Quando não há explicação externa, o psiquismo cria uma interna, ainda que custe autoestima, ainda que produza culpa. É preferível, muitas vezes, sentir-se culpado do que se deparar com a ausência de sentido.

Mas o ghosting não é apenas uma ferida de explicação. Ele é também uma ferida de continuidade.

Em Donald Winnicott, a experiência emocional saudável depende de uma sensação de continuidade do ser algo que se constrói na previsibilidade mínima do vínculo. Quando alguém desaparece sem transição, sem linguagem, há uma quebra dessa continuidade. O mundo interno perde um ponto de sustentação. Não é exagero dizer que, em alguns casos, a experiência é vivida como uma espécie de “queda invisível”.

E há ainda o corpo emocional do vínculo, como descreve John Bowlby. Nosso sistema de apego não foi feito para o desaparecimento sem resposta. Ele reage. Ele busca. Ele insiste. Por isso, o ghosting muitas vezes gera uma espécie de inquietação persistente: checagens constantes, ruminação, expectativa de retorno, dificuldade de encerrar mentalmente algo que, na prática, já foi encerrado pelo outro.

Mas talvez a dimensão mais delicada do ghosting não esteja apenas no outro que desaparece. Está no que ele desperta.

Porque o desaparecimento súbito raramente encontra um terreno neutro. Ele toca histórias anteriores: rejeições antigas, vínculos interrompidos, experiências de abandono, não necessariamente conscientes, mas inscritas na forma como cada um aprende a amar.


O ghosting atual, então, não é só sobre quem some. É também sobre tudo o que, dentro de quem fica, já conhecia o abandono de algum modo.

E é por isso que ele dói mais do que o “simples fim”. O fim, quando nomeado, organiza. O ghosting desorganiza.

No processo de elaboração psíquica, há um trabalho importante que se impõe: sustentar o não-fechamento sem transformá-lo imediatamente em culpa ou fantasia persecutória. Isso não é simples. O psiquismo prefere respostas ruins a perguntas abertas.

Outro passo é deslocar a pergunta central. Em vez de “por que ele fez isso comigo?”, algo mais estruturante pode surgir: “o que isso mobiliza em mim?” Não como forma de responsabilidade excessiva, mas como via de acesso ao próprio mundo interno.

E há ainda um movimento silencioso, mas fundamental: permitir o luto sem explicação completa. Nem toda perda vem acompanhada de sentido. Algumas perdas precisam ser atravessadas como são: incompletas, ambíguas, sem fechamento perfeito.

Talvez por isso o ghosting seja tão característico do nosso tempo. Ele revela uma dificuldade contemporânea de sustentar o encontro até o fim, especialmente quando o encontro deixa de ser confortável.

Mas, paradoxalmente, ele também abre uma possibilidade de amadurecimento emocional: aprender a lidar com aquilo que não se resolve completamente, com aquilo que não se explica totalmente, com aquilo que apenas termina sem anúncio.

E, ainda assim, deixa marcas.

Porque no psiquismo humano, o outro nunca desaparece por completo. Ele continua existindo na forma como foi inscrito dentro de nós mesmo quando escolheu sair sem dizer uma única palavra.




 
 

Se algo aí dentro pede sentido…
talvez seja o momento de olhar pra isso com mais cuidado.

A psicoterapia é um espaço seguro, sem julgamentos, onde você pode falar, entender e aos poucos transformar.

Atendimento online e presencial em Barretos/SPWhatsApp: (17) 98225-1161

Localizado na Rua Maria Osório Franco, 772. Exposição. Barretos/SP

© 2026 todos os diretos reservados para Mari Armani

bottom of page