O desafio de sustentar amizades na vida adulta
- Mari Armani
- há 22 horas
- 3 min de leitura
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã…” o verso de Renato Russo, na canção Pais e Filhos, costuma aparecer em momentos de intensidade, mas também provoca uma pergunta incômoda: no ritmo da vida adulta, ainda sabemos sustentar os nossos vínculos?
Na vida adulta, a experiência da amizade muda de forma silenciosa, mas

profunda. A rotina se impõe, as responsabilidades aumentam, o tempo parece sempre insuficiente. Aqueles encontros espontâneos vão sendo substituídos por agendas que raramente coincidem. Aos poucos, sem necessariamente haver um rompimento claro, algumas amizades ficam pelo caminho, não por falta de afeto, mas por falta de espaço. E é nesse ponto que algo importante começa a se revelar: a amizade, ao contrário do que muitas vezes imaginamos, não é automática. Ela exige trabalho psíquico.
A psicanálise ajuda a compreender por quê. Em Sigmund Freud, os vínculos humanos são atravessados por forças inconscientes. A amizade pode ser entendida como uma forma de amor que se desloca, se transforma, se “adapta” à convivência social. Mas isso não a torna simples. Pelo contrário: é justamente por carregar intensidade que ela também comporta ambivalências. Quem nunca sentiu uma pontada de comparação com um amigo que parece estar “mais à frente” na vida? Ou um certo incômodo ao perceber que já não compartilha das mesmas ideias? Esses movimentos não significam o fim da amizade, eles fazem parte dela.
Talvez o ponto mais delicado seja que, na vida adulta, já não buscamos apenas afinidade. Buscamos reconhecimento. Queremos ser vistos, compreendidos, validados, mas nem sempre estamos dispostos a lidar com o que o outro nos devolve. É aqui que a contribuição de Donald Winnicott se torna especialmente atual: sustentar uma relação implica aceitar que o outro não existe para nos completar, mas para nos confrontar em alguma medida. Uma amizade viva é aquela que suporta diferenças, silêncios e até afastamentos temporários sem se desfazer completamente.
O problema é que o contexto em que essas relações acontecem mudou. O sociólogo Zygmunt Bauman descreve a contemporaneidade como uma “modernidade líquida”, em que tudo tende a ser mais rápido e menos durável. Isso inclui os vínculos. Se algo incomoda, troca-se. Se exige demais, abandona-se. A lógica da eficiência invade até o campo afetivo.
Você provavelmente já viveu algo assim: conversas que ficam só na promessa (“precisamos nos ver!”), grupos de mensagens que substituem encontros reais, relações que parecem intensas no digital, mas frágeis na presença. Não é falta de interesse é falta de sustentação. E, aos poucos, isso vai produzindo um efeito curioso: estamos cercados de contatos, mas nem sempre de vínculos.
Do ponto de vista psíquico, isso tem um custo. A amizade não é apenas um espaço

de lazer ou descontração; ela cumpre uma função estruturante. É com amigos que muitas vezes elaboramos frustrações, organizamos pensamentos e damos sentido ao que vivemos. Sem esse espaço, a vida interna tende a ficar mais sobrecarregada, mais solitária.
E essa solidão nem sempre é evidente. Ela pode aparecer mesmo em meio a rotinas cheias, compromissos e interações constantes. Dados recentes indicam que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo vivencia a solidão de forma significativa. E não se trata apenas de um sentimento desconfortável: ela está associada ao aumento de quadros de ansiedade, depressão e até a impactos físicos, como alterações no sono, no sistema imunológico e maior risco de doenças cardiovasculares.
Talvez o mais importante seja reconhecer que, na vida adulta, a amizade deixa de ser algo que simplesmente “acontece” e passa a ser algo que se escolhe sustentar. Isso implica atravessar desencontros, respeitar ritmos diferentes e, muitas vezes, reconfigurar o próprio vínculo. Nem toda amizade vai permanecer como era aos 20 anos, e tudo bem. Algumas se tornam mais espaçadas, outras mais profundas, outras se encerram para dar lugar a novos encontros.
O que não parece negociável é a necessidade do outro. Em um mundo que valoriza autonomia, produtividade e independência, admitir essa necessidade pode soar desconfortável. Mas, do ponto de vista psicanalítico, é justamente na relação com o outro que o sujeito se constitui e se mantém.
Talvez, então, a questão não seja apenas “com quantos amigos você ainda fala”, mas “com quem você pode, de fato, contar e ser quem você é, sem tanto filtro”. Em tempos líquidos, sustentar esse tipo de vínculo não é simples. Mas é, possivelmente, uma das formas mais consistentes de cuidado com a própria saúde psíquica.



