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TDAH em adultos: quando a mente nunca descansa

  • Foto do escritor: Mari Armani
    Mari Armani
  • 18 de abr. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de jan.


Há adultos que vivem com a sensação constante de estar atrasados para a própria

vida. A agenda está cheia, as responsabilidades se acumulam, mas a mente parece nunca se aquietar o suficiente para acompanhar o ritmo do cotidiano. O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, muitas vezes associado apenas à infância, acompanha silenciosamente milhares de pessoas na vida adulta. Estima-se que entre 2,5% e 4% dos adultos convivam com sintomas persistentes de TDAH, e que cerca de 60% daqueles diagnosticados na infância levem essa experiência para a maturidade.

Para quem vive essa realidade, o sofrimento nem sempre é visível. Do lado de fora, pode parecer desorganização, esquecimento ou impulsividade. Por dentro, há frequentemente uma sensação de excesso: pensamentos que se atropelam, emoções difíceis de nomear, uma inquietação que não cessa nem mesmo nos momentos de descanso. Um paciente descreveu certa vez: “É como se minha cabeça nunca desligasse. Mesmo quando estou parado, algo em mim está sempre em movimento.”

A psicanálise nos ajuda a compreender que o TDAH adulto não se resume a uma dificuldade de foco. Ele envolve, de forma profunda, a maneira como a pessoa aprendeu, ou não, a sustentar a própria experiência emocional. Donald Winnicott nos lembra que o desenvolvimento emocional depende de um ambiente suficientemente bom, capaz de acolher, organizar e dar sentido às vivências internas. Quando esse ambiente falha de maneira significativa ou repetida, o indivíduo pode crescer com uma sensação difusa de insegurança interna, tendo dificuldade para sustentar frustrações, organizar afetos e manter continuidade nas ações.

Nesse contexto, a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade deixam de ser apenas sintomas a serem combatidos e passam a ser compreendidos como formas de sobrevivência psíquica. Um adulto com TDAH pode relatar: “Quando preciso me concentrar em algo importante, fico inquieto, ansioso, e minha mente foge para qualquer outra coisa. Não é que eu não queira fazer, é que algo em mim não suporta ficar ali.” Sob a ótica winnicottiana, essa fuga não é desinteresse, mas uma tentativa inconsciente de proteção diante de uma tensão emocional que não encontra sustentação interna suficiente.

Wilfred Bion aprofunda ainda mais essa compreensão ao descrever como a mente transforma experiências emocionais em pensamento. Segundo ele, emoções muito intensas ou pouco elaboradas permanecem como elementos brutos, difíceis de serem pensados ou nomeados. Quando essa transformação falha, a mente busca alívio imediato por meio da ação, da dispersão ou do movimento. No adulto com TDAH, isso pode aparecer como impulsividade, dificuldade de permanecer em uma tarefa ou necessidade constante de estímulos externos. Um paciente descreveu: “Quando fico ansioso, não consigo pensar. Eu faço alguma coisa, qualquer coisa, só para não sentir.”

Essas experiências ajudam a entender por que o impacto do TDAH na vida adulta é tão abrangente. No trabalho, surgem dificuldades para concluir projetos, cumprir prazos e organizar tarefas complexas. Nos relacionamentos, a impulsividade e a dificuldade de escuta podem gerar conflitos, mal-entendidos e sentimentos de inadequação. No cotidiano, a desorganização financeira, a procrastinação e o autocuidado irregular alimentam um ciclo de frustração e culpa. Muitos adultos relatam a sensação persistente de que estão sempre aquém do próprio potencial.

A psicoterapia oferece um caminho possível de transformação. Ao criar um espaço de escuta e acolhimento, a terapia funciona como um ambiente suficientemente bom, onde o paciente pode, pouco a pouco, aprender a sustentar suas emoções sem precisar agir imediatamente. O trabalho terapêutico ajuda a transformar aquilo que antes era apenas inquietação ou impulso em experiência pensável, nomeável e, portanto, manejável. Um paciente relatou após algum tempo de tratamento: “Hoje consigo perceber quando algo começa a me tirar do eixo. Paro, penso no que estou sentindo e só então ajo. É como se eu tivesse criado um espaço dentro de mim que antes não existia.”

Compreender o TDAH em adultos é compreender uma mente que nunca descansou totalmente, mas que pode aprender, ao longo da vida, a encontrar mais silêncio interno, mais continuidade e mais sentido. Não se trata de eliminar sintomas, mas de construir recursos internos que permitam viver com mais presença, menos culpa e maior integração entre pensamento, emoção e ação.

Buscar ajuda é, muitas vezes, o primeiro gesto de cuidado consigo mesmo. E, para muitos adultos, é também o início de uma relação mais compassiva com a própria mente.

 


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