Feminicídio: quando o silêncio mata
- Mari Armani
- 11 de mar.
- 3 min de leitura
Silêncio do vizinho, da família, da sociedade....
No coração do feminicídio pulsa uma ferida que não cabe apenas nas estatísticas, embora estas sejam necessárias para revelar a dimensão da tragédia. No Brasil, dados recentes apontam que em 2025 foram assassinadas 1.568 mulheres por razões de gênero, um aumento de 4,7 % em relação ao ano anterior, sendo que o maior risco ainda está dentro de casa, cometido por parceiros ou ex-parceiros íntimos em cerca de 8 em cada 10 casos. Mais de 62 % das vítimas eram mulheres negras, evidenciando desigualdades profundas que atravessam gênero, raça e classe social.

A psicanálise nos ensina que a vida psíquica se sustenta num tecido simbólico, uma rede de significados que organiza nossos vínculos, nossos desejos e nossos modos de existir no mundo. Quando esse tecido é rasgado pela violência, pelo desprezo, pelo controle e pela hostilidade, o sujeito fica exposto ao cru da realidade sem mediação, sem palavras para sua dor, sem espaço para uma escuta que o reconheça como sujeito de afeto e não como objeto de posse.
Em muitos casos, antes do feminicídio, há um percurso de dominação e desvalorização sistemática da mulher que se materializa em violência psicológica, controle, humilhações, agressões repetidas e tentativas de anular a subjetividade feminina. Esse percurso não é acidental: está imbricado em estruturas socioculturais patriarcais, que moldam expectativas de poder masculino e relegam a mulher a um lugar de inferioridade, objetificação ou propriedade.
Os números humanos por trás das estatísticas são sempre pessoas: mulheres que tinham projetos, desejos, relações afetivas, sonhos interrompidos. O Brasil registra milhares de feminicídios desde 2015, quando o crime foi tipificado no Código Penal como forma qualificada de homicídio por motivo de gênero, e apesar disso as cifras seguem muito altas e persistentes.
Cada feminicídio é também o sinal de um sistema social que não ouviu os sinais de alerta, que não acolheu a dor, nem ofereceu caminhos seguros para a saída de relações abusivas. A prevenção, portanto, não é apenas policial ou jurídica: é psicológica, educacional, cultural. É aprender, desde cedo, a nomear e dar lugar à dor e ao medo, a reconhecer sinais de violência e a cultivar relações interpessoais baseadas em respeito, não em domínio.
A psicanálise nos lembra que sofrer em silêncio não é apenas uma opção muitas vezes é a única que uma vítima vê diante de um sistema que ainda falha em protegê-la. E esse silêncio é um espectro que alimenta a violência: um corpo que não pode falar, um desejo que não pode ser ouvido, um medo que não encontra escuta.
O feminicídio nos convoca, então, a escutar não só os números, mas as vozes que ficaram caladas. A cada dado existe um grito. E compreender esses gritos é um passo essencial para interromper o ciclo, para que o grito de uma mulher em sofrimento seja ouvido antes que ele se torne um lamento impossível de ser recuperado.
Enfim, vamos nos manifestar...

Nós, mulheres, existimos.
Nosso corpo não é território de posse.
Nosso desejo não é objeto de controle.
Nosso medo não pode ser ignorado.
O sofrimento invisível se esconde nas palavras não ditas, nos gritos engolidos, nos sinais que ninguém quis escutar.
Antes do feminicídio, existe o controle, a humilhação, a tentativa de apagar nossa subjetividade.
O que se mata é mais que um corpo: é a vida que ousou existir fora do controle do outro.
Nos recusamos a permanecer em silêncio.
Exigimos escuta antes que o horror aconteça.
Exigimos políticas, apoio psicológico, educação emocional e cultural, proteção real.
Exigimos que nossos medos sejam reconhecidos, que nossos alertas sejam atendidos, que nossa dor não seja invisível.
O feminicídio não é apenas estatística.
É grito, é vida interrompida, é sonho quebrado, é dor que ecoa.
Cada número é uma mulher que mereceu ser ouvida.
Cada vida perdida é uma falha do mundo em nos proteger.
Chega de silêncio.
Chega de medo.
Chega de corpos que pagam com a vida pelo crime de existir.
Nós exigimos respeito.
Nós exigimos escuta.
Nós exigimos vida.
A prevenção começa na escuta, na educação, na cultura e no reconhecimento do sofrimento feminino antes que seja tarde.
Que nossos gritos ecoem, que nossos alertas sejam sinais, que nossa existência seja inegociável.
Não mais uma a menos. Nunca mais uma a menos.



