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Quando ser quem se é se torna um risco: uma leitura psicanalítica sobre a homofobia

  • Foto do escritor: Mari Armani
    Mari Armani
  • 11 de mai.
  • 4 min de leitura

“Isso é errado.”

“Isso não é natural.”

“Isso é escolha.”

“Isso é falta de vergonha.”


Muitas pessoas cresceram ouvindo frases como essas. Outras ainda as escutam: em casa, no trabalho, em espaços religiosos ou institucionais. Às vezes, elas aparecem de forma direta. Em outras, vêm disfarçadas de “opinião”, “preocupação” ou “cuidado”.

Mas seus efeitos são concretos.

Esses enunciados não são apenas palavras soltas. Eles fazem parte de um conjunto de discursos que sustentam a homofobia e produzem sofrimento real, sofrimento psíquico, relacional e, muitas vezes, físico. Não raro, deixam marcas profundas: silenciamento, vergonha, medo de existir como se é.

Por isso, compreender a homofobia exige ir além da superfície. Não se trata apenas de atitudes individuais, mas de um fenômeno que atravessa a vida psíquica, as normas culturais e as estruturas sociais.

E, para isso, é fundamental falar sobre o desejo.

Desde Sigmund Freud, a psicanálise aponta que a sexualidade humana não segue um único caminho, nem pode ser reduzida a uma forma considerada “normal”. Freud mostrou que o desejo não é algo que escolhemos de maneira consciente. Ele se constrói ao longo da vida, a partir das nossas experiências, vínculos, identificações e da nossa história, muitas vezes de forma inconsciente.

Isso significa algo importante: não há uma única forma legítima de desejar.

Mais tarde, Jacques Lacan aprofundou essa ideia ao mostrar que nos constituímos na

relação com o outro e com a linguagem. Desde cedo, somos atravessados por normas, expectativas e discursos que dizem quem devemos ser, como devemos amar, o que é considerado aceitável.

Essas normas tentam organizar o mundo e também o desejo. Mas o desejo não cabe completamente nelas.

E é justamente aí que surgem os conflitos.

Quando alguém vive sua sexualidade de forma que desafia essas normas, isso pode provocar incômodo em outras pessoas. A psicanálise nos ajuda a entender que esse incômodo, muitas vezes, não vem apenas “de fora”, mas de conflitos internos. Diante do que causa estranhamento ou ameaça certezas, podem surgir mecanismos como negação, repressão e projeção; formas de afastar aquilo que é difícil de reconhecer em si mesmo.

Nesses casos, o outro passa a carregar aquilo que precisa ser rejeitado. E é assim que o preconceito pode se transformar em hostilidade e, em situações mais graves, em violência.

Mas é importante dizer com clareza: entender esses mecanismos não justifica a violência. Ajuda, sim, a desnaturalizá-la.

Porque essa violência não fica apenas no plano das ideias.

No Brasil, ela se expressa em números que impressionam e que, por trás de cada dado, representam vidas, histórias e afetos interrompidos. Em 2024, foram registradas mais de 22 mil notificações de violência contra pessoas LGBTQIA+, uma média superior a 60 casos por dia. Muitas dessas agressões acontecem dentro de casa, em espaços que deveriam ser de proteção.

Em 2025, 257 pessoas LGBTQIA+ foram mortas violentamente no país. Pessoas trans e travestis seguem entre as mais expostas à violência extrema.

Esses dados mostram que a homofobia não é apenas um problema de opinião. Ela produz medo, isolamento e, em muitos casos, ameaça direta à vida.

No campo contemporâneo, Judith Butler contribui para ampliarmos essa compreensão ao propor que gênero e sexualidade não são essências fixas, mas construções sociais que se repetem ao longo do tempo. As normas culturais definem quais formas de existência são reconhecidas e quais são rejeitadas.

Quando alguém escapa dessas normas, muitas vezes passa a ocupar um lugar de vulnerabilidade.

Nesse sentido, a violência pode ser entendida como uma tentativa de forçar o retorno a um padrão, de controlar aquilo que insiste em existir de forma diversa.

Mas há algo que nenhuma norma consegue apagar: a singularidade de cada sujeito.

A psicanálise nos lembra que cada pessoa constrói sua forma de desejar e de se relacionar de maneira única. Não existe um modelo universal que possa dar conta da complexidade da experiência humana.


E talvez isso seja, ao mesmo tempo, o que mais assusta e o que mais nos humaniza.

Para quem vive na pele esse tipo de rejeição, é importante dizer: o sofrimento não é sinal de erro individual. Muitas vezes, ele é efeito de um encontro doloroso entre a singularidade do desejo e um mundo que ainda insiste em impor padrões rígidos.

Enfrentar a homofobia, portanto, não é uma tarefa simples nem individual.

No plano social, exige políticas públicas que protejam e garantam direitos. Nos espaços institucionais, pede ambientes mais seguros, acolhedores e comprometidos com a diversidade.

E, no plano subjetivo, implica abrir espaço para a escuta, uma escuta que não julga, mas que permite que cada sujeito possa existir com menos medo e mais reconhecimento.

Porque, no fundo, a diversidade sexual não é um desvio. É uma expressão da própria condição humana.

Reconhecer isso não é apenas um gesto de tolerância. É um passo em direção a uma sociedade em que menos pessoas precisem sofrer para serem quem são.

E talvez a pergunta que permaneça não seja apenas por que ainda existe tanta violência, mas: o que nos impede, como sociedade, de conviver com a diferença sem transformá-la em ameaça?

E mais: que tipo de mundo queremos sustentar, um que silencia o desejo ou um que permite que ele exista, com dignidade?




 
 

Se algo aí dentro pede sentido…
talvez seja o momento de olhar pra isso com mais cuidado.

A psicoterapia é um espaço seguro, sem julgamentos, onde você pode falar, entender e aos poucos transformar.

Atendimento online e presencial em Barretos/SPWhatsApp: (17) 98225-1161

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