Quem cuida de quem cuida?
- Mari Armani
- 18 de ago.
- 3 min de leitura

Há quem sustente uma casa inteira. Há quem sustente os filhos, os pais, o parceiro, a equipe de trabalho, os amigos. Há quem seja sempre o porto seguro, a pessoa que resolve, organiza, acolhe, escuta e encontra uma saída quando todos parecem perdidos.
Mas existe uma pergunta que quase nunca é feita:
O que sustenta quem sustenta o outro?
Vivemos em uma cultura que valoriza a produtividade, a autonomia e a capacidade de dar conta de tudo. Recebemos elogios por sermos fortes, resilientes e disponíveis. Aos poucos, sem perceber, muitas pessoas passam a acreditar que demonstrar cansaço é sinal de fraqueza e que precisar de ajuda significa falhar.
O resultado aparece no cotidiano de formas silenciosas. É a mãe que deita exausta e não consegue dormir. O profissional que resolve problemas o dia inteiro, mas sente um vazio difícil de explicar. O filho adulto que cuida dos pais e já não sabe onde terminam as necessidades deles e começam as suas. É quem escuta todos, mas percebe que já não tem com quem falar.
Por fora, tudo parece funcionar. Por dentro, algo começa a faltar.
A psicanálise nos convida a olhar para esse lugar que raramente recebe atenção. Sustentar alguém não é apenas uma tarefa prática; é também uma posição subjetiva. Muitas vezes, ela se constrói muito antes da vida adulta.
Há pessoas que aprenderam, ainda na infância, que precisavam ser maduras cedo demais. Outras descobriram que eram valorizadas quando cuidavam, acalmavam conflitos ou deixavam seus próprios desejos em segundo plano. Sem perceber, o cuidado passa a ser mais do que uma escolha: torna-se uma forma de existir e de ser reconhecido.
Nesse sentido, a necessidade constante de sustentar o outro pode estar ligada ao que a psicanálise compreende como modos inconscientes de buscar amor, pertencimento e valor. O sujeito ocupa um lugar na dinâmica familiar e, muitas vezes, continua repetindo esse lugar em diferentes relações ao longo da vida.
Isso não significa que cuidar seja um problema. O problema começa quando cuidar exige o abandono de si mesmo. Quando o "eu dou conta" impede que alguém diga "eu preciso".
Quando a responsabilidade pelo bem-estar dos outros se transforma em culpa sempre que surge o desejo de descansar.
A repetição desses padrões costuma acontecer de forma inconsciente. Freud chamou esse movimento de compulsão à repetição: uma tendência de reviver modos antigos de se relacionar, mesmo quando eles produzem sofrimento. Não porque a pessoa escolha sofrer, mas porque aquilo lhe parece familiar. O conhecido, ainda que doloroso, frequentemente transmite uma falsa sensação de segurança.
Também é importante lembrar que ninguém consegue sustentar continuamente o outro sem algum tipo de apoio. Assim como uma casa precisa de pilares, a vida psíquica também necessita de espaços onde possamos descansar, elaborar emoções e reconhecer nossos próprios limites.
Na prática, isso significa fazer perguntas que nem sempre são fáceis.
Quando foi a última vez que você pediu ajuda?
Você consegue dizer "não" sem sentir culpa?
Você sabe identificar o que deseja ou passa tanto tempo atendendo às necessidades dos outros que perdeu essa referência?
Há momentos em que pequenas mudanças já fazem diferença: permitir-se dividir responsabilidades, reconhecer o próprio cansaço antes do esgotamento, criar espaços de descanso sem a obrigação de "merecê-los" e cultivar relações em que o cuidado seja recíproco, não unilateral.
Esses gestos não são egoísmo são formas de preservar a própria saúde emocional.
Entretanto, quando a sensação de peso é constante, quando a culpa aparece sempre que você pensa em si, quando a ansiedade, a irritabilidade, o desânimo ou o
esgotamento passam a fazer parte da rotina, talvez seja o momento de olhar para essa história com mais profundidade.
A psicoterapia psicanalítica oferece justamente esse espaço.
Não para ensinar alguém a deixar de cuidar dos outros, mas para compreender por que cuidar se tornou, tantas vezes, a única forma possível de existir nas relações. Ao longo do processo, é possível reconhecer padrões inconscientes, elaborar experiências antigas e construir maneiras mais saudáveis de se vincular, nas quais o cuidado não aconteça às custas do próprio sofrimento.
Porque ninguém sustenta o mundo inteiro por tempo indeterminado, até o mais forte precisa de um lugar onde possa descansar. E talvez a verdadeira força não esteja em carregar tudo sozinho, mas em reconhecer que quem sustenta também precisa e merece ser sustentado.



