O que a guerra desperta em nós?
- Mari Armani
- 23 de mar.
- 3 min de leitura

Quando uma guerra aparece nas notícias, é comum que a primeira leitura seja política ou estratégica. Fala-se de territórios, alianças, interesses econômicos, poder militar. Mas, para quem observa a partir da psicanálise, algo mais silencioso também está acontecendo: a guerra começa a se instalar dentro das pessoas.
Ela atravessa as telas, os discursos, as conversas cotidianas. E pouco a pouco vai produzindo um clima difícil de nomear. Um sentimento de inquietação, de instabilidade, como se algo no mundo estivesse se deslocando do lugar. Não se trata apenas da preocupação com um conflito distante. O que muitas vezes emerge é uma sensação difusa de que o futuro se tornou mais incerto.
Essa sensação é intensificada quando a guerra se mistura com crises econômicas, inflação, instabilidade nos mercados, insegurança em relação ao trabalho e ao amanhã. De repente, aquilo que parecia relativamente previsível: a continuidade da vida, dos projetos, da organização social; começa a parecer mais frágil. E, nesse cenário, volta a circular com força uma imagem que habita o imaginário coletivo desde o século XX: o medo de uma terceira guerra mundial.
Do ponto de vista psicanalítico, esses sentimentos não são apenas reações racionais aos acontecimentos. Eles tocam algo mais profundo na experiência humana. Em O Mal-Estar na Civilização, Sigmund Freud já sugeria que a civilização se sustenta sobre um equilíbrio delicado: para viver juntos, precisamos conter nossos impulsos mais agressivos e destrutivos. A cultura, as leis, as instituições e as normas sociais funcionam como barreiras que mantêm essa agressividade sob controle.
Mas Freud também lembrava que essa contenção nunca é completa. Há sempre um resto de tensão, um mal-estar permanente, uma força que insiste em escapar. Quando a guerra irrompe, ela revela justamente essa fragilidade: aquilo que a civilização tenta domesticar pode retornar de forma brutal e coletiva.
Talvez seja por isso que as guerras nos afetem tanto, mesmo quando acontecem longe. Elas expõem uma possibilidade inquietante: a de que as estruturas que organizam a vida humana: políticas, sociais, econômicas; não sejam tão sólidas quanto imaginávamos.
Essa percepção encontra um eco profundo nas ideias de Donald Winnicott. Para ele, a

saúde psíquica depende de algo fundamental: a experiência de um ambiente suficientemente confiável. Desde o início da vida, o ser humano precisa sentir que existe um mundo que o sustenta, que o acolhe, que mantém uma certa continuidade. É essa estabilidade que permite que o sujeito exista, sonhe, crie e planeje o futuro.
Quando esse ambiente se torna instável, algo muito primitivo pode ser mobilizado. Não apenas medo, mas uma angústia mais profunda, a sensação de que o chão pode desaparecer. Winnicott chamava atenção para o risco do colapso psíquico quando o ambiente falha em sustentar o sujeito.
Em um mundo hiperconectado, onde guerras são transmitidas em tempo real e crises econômicas se propagam rapidamente, muitas pessoas passam a experimentar algo semelhante no plano coletivo. Mesmo sem perceber claramente, elas podem sentir que o ambiente global perdeu parte de sua confiabilidade. O mundo parece mais imprevisível, mais frágil.
Nesse sentido, o medo de uma terceira guerra mundial não é apenas uma previsão geopolítica. Ele também funciona como uma imagem psíquica poderosa: a fantasia de que a própria moldura da civilização pode se romper.
Talvez seja por isso que esses acontecimentos nos toquem tão profundamente. Eles não dizem respeito apenas a países ou fronteiras. Eles nos confrontam com uma pergunta silenciosa: até que ponto o mundo em que vivemos é capaz de continuar nos sustentando?
E, ao mesmo tempo, revelam algo sobre nossa própria condição. A civilização existe justamente porque tentamos transformar a violência em convivência, a destruição em criação, o medo em possibilidade de futuro. Mas essa transformação nunca está completamente garantida. Ela precisa ser continuamente reconstruída: nas instituições, nas culturas e também nas relações humanas mais cotidianas.
Talvez a inquietação que sentimos diante das guerras seja, no fundo, o eco dessa fragilidade. Um lembrete de que aquilo que chamamos de civilização não é um estado definitivo, mas um trabalho permanente, delicado, tenso e profundamente humano.



