Masculinidade ferida: quando o orgulho decide quem vive
- Mari Armani
- 16 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de fev.
Pai mata os dois filhos e deixa uma carta responsabilizando o ato à traição da esposa”.
Quando um caso como esse acontece, a reação imediata costuma oscilar entre o horror e a busca por uma explicação simples: ciúme, traição, descontrole. Mas nenhuma palavra isolada dá conta do que está em jogo quando um pai mata os próprios filhos e atribui o ato à infidelidade da companheira. O que se rompe ali não é apenas um vínculo conjugal é o pacto mais básico de proteção, é a ideia de que o amor parental estabelece um limite intransponível contra a violência.

Chamar de “crime passional” parece oferecer uma moldura compreensível. No entanto, paixão não explica. Paixão não mata filhos. O que aparece, sob a superfície, é algo mais complexo: uma combinação entre narcisismo ferido, sentimento de posse e incapacidade de suportar a perda.
Do ponto de vista psíquico, a traição pode ser vivida como colapso da identidade. Para certos sujeitos, o parceiro não é apenas alguém amado, mas o espelho que sustenta a própria imagem de valor. Quando esse espelho se quebra, não se perde apenas a relação, perde-se um lugar simbólico. A dor deixa de ser tristeza elaborável e se transforma em humilhação intolerável. E a humilhação, quando não encontra linguagem, pode se converter em ódio.
Amor e ódio, nesse sentido, não são opostos distantes. São vizinhos. Quando o amor é fusional e possessivo, a separação não é percebida como diferença entre sujeitos, mas como destruição do eu. Em estruturas psíquicas frágeis, pode emergir uma lógica devastadora: se me destruíram, destruo também.
É aqui que a entrada dos filhos na cena nos confronta com algo ainda mais perturbador. Filhos costumam ocupar, no imaginário inconsciente, o lugar de continuidade, de “meu sangue”, de prolongamento simbólico da própria existência. Em situações de colapso psíquico extremo, eles podem deixar de ser percebidos como sujeitos autônomos e passar a ser capturados como extensão da relação que feriu. Não se trata de cálculo frio, mas de regressão profunda: o outro deixa de ser reconhecido em sua alteridade.
Há, ainda, uma dimensão cruel de mensagem. Atingir os filhos pode ser, inconscientemente, a forma mais radical de atingir a mãe. O ato torna-se comunicação violenta, tentativa de produzir no outro uma dor equivalente ou maior. Nesse ponto, o amor deixa de proteger e passa a destruir.
Mas nenhuma análise psíquica é suficiente se não afinarmos a lente para o contexto social em que esses sujeitos são formados.
A masculinidade brasileira foi historicamente construída sobre pilares como autoridade, honra, posse e invulnerabilidade. O homem como chefe, como dono, como aquele que não pode ser diminuído. Durante décadas, a própria estrutura jurídica ecoou essa lógica, permitindo que a violência fosse relativizada em nome da honra masculina, tese só declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em 2021. Isso revela o quanto a cultura legitimou, por muito tempo, a ideia de que a dignidade do homem estava vinculada ao controle sobre a mulher.
Essa herança não desaparece com a mudança da lei. Ela permanece na educação emocional.
Muitos meninos ainda aprendem que: demonstrar dor é fraqueza; chorar é vergonha; ser traído é ser ridicularizado; perder é inaceitável.
O repertório afetivo permitido é estreito. Tristeza vira irritação. Vergonha vira agressividade. Medo vira ataque.
Quando a identidade masculina é rigidamente apoiada na ideia de controle, a traição deixa de ser apenas um evento doloroso e passa a ser vivida como falência existencial. Não é apenas “ela me traiu”, mas “eu fui desautorizado”. E se o sujeito não dispõe de recursos simbólicos para atravessar essa experiência, a dor pode se transformar em ação destrutiva.

Nada disso significa que a cultura determina o crime. A imensa maioria dos homens atravessa perdas e humilhações sem recorrer à violência. O que diferencia é a combinação entre história individual, estrutura psíquica, fragilidade narcísica e o ambiente simbólico que legitima ou não determinadas respostas.
Mas ignorar a dimensão cultural seria reduzir o problema ao indivíduo isolado, como se ele surgisse no vazio.
Se continuarmos formando homens que confundem amor com posse, honra com controle e vulnerabilidade com fraqueza, continuaremos produzindo subjetividades pouco preparadas para lidar com a frustração inevitável da vida afetiva. Se meninos não aprendem a nomear vergonha, a suportar rejeição, a reconhecer o outro como sujeito independente, a dor pode se tornar insuportável e, em casos extremos, transbordar como violência.
Talvez a pergunta mais urgente não seja apenas “como alguém foi capaz?”, mas “que modelo de masculinidade ainda estamos sustentando?”.
Porque quando a identidade depende do domínio, qualquer perda parece aniquilação. E quando o narcisismo ocupa o lugar do reconhecimento do outro, até mesmo os filhos que deveriam representar cuidado e continuidade podem ser tragicamente arrastados para dentro de um conflito que nunca lhes pertenceu.
Refletir sobre isso não é relativizar a responsabilidade individual. É ampliá-la. É reconhecer que a transformação necessária não é apenas jurídica, mas emocional e cultural. É admitir que uma sociedade que ensina homens a não sentir também precisa aprender a ensiná-los a sofrer sem destruir.
É hora de refletir sobre o papel que cada um de nós desempenha na perpetuação desse ciclo.



