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Infâncias roubadas: uma reflexão psicanalítica sobre o abuso e exploração sexual

  • Foto do escritor: Mari Armani
    Mari Armani
  • 18 de mai.
  • 3 min de leitura

“Ela nunca soube explicar exatamente o que aconteceu, só lembrava que, depois daquele dia, o mundo deixou de ser um lugar seguro e seu silêncio passou a dizer tudo o que não podia ser dito”.


Falar sobre abuso e exploração sexual infantil é, antes de tudo, enfrentar um campo atravessado pelo silêncio. Um silêncio que não é vazio, mas carregado de dor, vergonha, medo e, muitas vezes, de impossibilidade de dizer. A violência sexual contra crianças e adolescentes não se inscreve apenas no corpo, ela atinge o núcleo da constituição psíquica, abalando profundamente a forma como o sujeito se percebe, se relaciona e existe no mundo.

Ao nos aproximarmos dessa temática sob a luz da psicanálise, somos convocados a ir além dos fatos visíveis. Trata-se de escutar aquilo que, frequentemente, não pôde ser simbolizado.

Sándor Ferenczi, descreve o desencontro radical entre o universo da criança marcado pela ternura e pela busca de cuidado e o do adulto abusador, que impõe uma sexualidade violenta e invasiva. Nesse encontro assimétrico, a criança não apenas sofre, mas se vê impossibilitada de compreender e elaborar o que aconteceu. O trauma, então, não é só o ato em si, mas a ausência de um espaço psíquico que permita dar sentido à experiência.

Essa impossibilidade de simbolização é central. Muitas vítimas não conseguem nomear o que viveram; outras carregam sentimentos de culpa ou vergonha que não lhes pertencem. O silêncio, nesse contexto, não é escolha, é efeito do trauma.

Para Donald Winnicott, o desenvolvimento emocional saudável depende de um “ambiente suficientemente bom”, capaz de sustentar a criança em sua vulnerabilidade. O abuso sexual representa exatamente o oposto: uma falha ambiental extrema, na

qual aquele que deveria proteger torna-se fonte de ameaça.

Quando isso ocorre, não se trata apenas de um evento isolado, mas de uma ruptura nas bases da confiança. O mundo deixa de ser um lugar seguro, e o próprio eu pode se fragmentar diante da violência sofrida. Em muitos casos, surgem defesas psíquicas como a dissociação, uma tentativa de sobreviver ao insuportável.

Se a psicanálise nos ajuda a compreender a profundidade subjetiva do trauma, os dados estatísticos revelam a extensão do problema, ainda que nunca consigam capturar sua totalidade.

No Brasil, dezenas de milhares de casos de violência sexual contra crianças e adolescentes são registrados todos os anos. Estimativas recentes indicam que milhões de jovens já foram expostos a formas de abuso, inclusive mediadas por tecnologias digitais. Em escala global, centenas de milhões de meninas e mulheres sofreram algum tipo de violência sexual ainda na infância.

Mas há algo fundamental a ser dito: esses números são apenas a superfície. A maioria dos casos permanece invisível, ocorrendo dentro de casa, no seio de relações que deveriam ser de cuidado e proteção. O abuso infantil é, em grande medida, um crime do silêncio.

Nem sempre a infância foi reconhecida como um tempo que exige proteção. Durante séculos, crianças foram vistas como adultos em miniatura, sem direitos específicos. Foi apenas com o avanço das ciências humanas e das lutas sociais que essa concepção começou a mudar.

Ao longo do século XX, a emergência de campos como a psicanálise, a pediatria e a psicologia do desenvolvimento contribuiu para tornar visível a especificidade da experiência infantil. Paralelamente, movimentos sociais e organismos internacionais passaram a denunciar a violência contra crianças como uma questão pública.

No Brasil, marcos legais como o Estatuto da Criança e do Adolescente consolidaram a ideia de proteção integral. A criação do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em 18 de maio, não apenas rememora uma tragédia, mas reafirma o compromisso coletivo com a ruptura do silêncio.

Hoje, novos desafios se impõem. A expansão do ambiente digital abriu caminhos para formas contemporâneas de exploração, exigindo respostas igualmente complexas e articuladas.

Diante de tudo isso, torna-se evidente que o enfrentamento do abuso e da exploração sexual infantil não pode se limitar à punição dos agressores, ainda que ela seja necessária. É preciso, sobretudo, criar condições para que a criança possa falar, ser escutada e reconhecida como sujeito.


A psicanálise nos ensina que onde houve trauma, é necessário construir possibilidade de simbolização. Isso implica tempo, escuta e cuidado. Implica também uma posição ética: acreditar na palavra da criança, sustentar sua narrativa e não recuar diante do desconforto que esse tema provoca.

Romper o silêncio é, talvez, o primeiro ato de transformação. Mas não basta falar é preciso escutar de fato. E escutar, nesse contexto, é também um compromisso político.

 

“O abuso sexual infantil não começa com o ato em si, mas com a ruptura de algo fundamental: o direito de uma criança existir em um mundo que a proteja.”

 

Vamos contribuir para que nossas crianças estejam seguras!




 
 

Se algo aí dentro pede sentido…
talvez seja o momento de olhar pra isso com mais cuidado.

A psicoterapia é um espaço seguro, sem julgamentos, onde você pode falar, entender e aos poucos transformar.

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