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Da internação à escuta: Loucura, psicanálise e luta antimanicomial

  • Foto do escritor: Mari Armani
    Mari Armani
  • 18 de abr.
  • 3 min de leitura

“A loucura é vizinha da razão.”

Arnaldo Antunes



O que é, afinal, a loucura? E quem tem o poder de nomeá-la?


Ao longo da história, aquilo que se convencionou chamar de “loucura” foi menos uma verdade absoluta e mais uma construção social, moldada por valores, normas e interesses de cada época. Em muitos momentos, o louco não foi apenas aquele que sofria, mas aquele que destoava, que escapava, que não se encaixava. E, diante do que escapa, a resposta mais recorrente da sociedade foi o afastamento, a criação de muros, físicos e simbólicos, que separassem o “normal” do “anormal”.


Como aponta Michel Foucault, a loucura só pode ser compreendida dentro das relações de poder que a definem. Não se trata apenas de uma condição clínica, mas de um lugar socialmente produzido. A partir da Idade Clássica, esse lugar passa a ser o da exclusão: o internamento em instituições que prometiam cuidado, mas que frequentemente operavam como espaços de silenciamento. Ali, o sujeito deixava de ser escutado e passava a ser administrado.


Essa lógica produziu efeitos devastadores. Erving Goffman descreve as

instituições psiquiátricas como espaços de “mortificação do eu”, onde identidades são apagadas e substituídas por rótulos. A pessoa deixa de ser alguém com uma história, desejos e conflitos, para tornar-se apenas um diagnóstico. O que se perde, nesse processo, é justamente aquilo que a psicanálise considera fundamental: a singularidade do sujeito.

Sigmund Freud já indicava que há sentido naquilo que parece não ter. Ao afirmar que o delírio é uma tentativa de reconstrução da realidade, ele nos convida a escutar a loucura não como erro, mas como linguagem. Jacques Lacan, posteriormente, reforça que mesmo na psicose há uma lógica, uma forma própria de organização do mundo. A questão, então, se desloca: em vez de calar a loucura, o que ela tem a nos dizer?

Apesar dessas contribuições, a prática das internações, especialmente as compulsórias, persistiu por muito tempo como resposta predominante ao sofrimento psíquico. No Brasil, antes da reforma psiquiátrica, milhares de pessoas viveram por anos, ou até décadas, em hospitais psiquiátricos, muitas vezes sem qualquer perspectiva de saída. Casos emblemáticos, como o do Hospital Colônia de Barbacena, revelaram ao país uma realidade marcada por abandono, violência e morte.

Mesmo após avanços legais e institucionais, a questão das internações continua atual e controversa. Dados do Ministério da Saúde indicam que, embora tenha havido uma redução significativa de leitos em hospitais psiquiátricos nas últimas décadas, ainda há um número expressivo de internações, muitas delas motivadas por crises relacionadas ao uso de substâncias psicoativas e realizadas, em alguns contextos, sem o pleno consentimento do sujeito. Além disso, relatórios do Conselho Federal de Psicologia e de organismos de direitos humanos têm denunciado práticas de internação em comunidades terapêuticas que, por vezes, reproduzem lógicas asilares, com restrição de liberdade e violação de direitos.

Diante desse cenário, torna-se inevitável perguntar: estamos, de fato, superando o manicômio, ou apenas reinventando suas formas?

A luta antimanicomial emerge justamente como uma resposta a essa questão. Mais do que propor o fechamento de instituições, ela convoca uma mudança de olhar. Trata-se de deslocar o foco da doença para o sujeito, do isolamento para o convívio, do controle para o cuidado. Como afirma Franco Basaglia, o problema não está apenas na doença mental, mas na forma como a sociedade escolhe lidar com ela.

No Brasil, esse movimento ganha força a partir das décadas de 1970 e 1980, culminando na criação do Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio. Essa data não é apenas simbólica: ela representa a afirmação de um compromisso ético e político com a liberdade, a dignidade e a escuta daqueles que, por muito tempo, foram reduzidos ao silêncio.

Sob a perspectiva da psicanálise, essa luta encontra um fundamento essencial: o reconhecimento de que há sujeito na loucura. Isso implica sustentar a escuta, mesmo quando ela é difícil, fragmentada ou desconcertante. Implica também recusar soluções rápidas que eliminam o sintoma sem considerar sua função na economia psíquica do indivíduo.


Falar de cuidado, nesse contexto, é falar de responsabilidade não apenas técnica, mas também ética. É reconhecer que cada internação carrega uma história, um risco e uma escolha que não pode ser banalizada. É questionar se estamos acolhendo ou apenas afastando; se estamos escutando ou apenas classificando.

Talvez a grande provocação da luta antimanicomial seja justamente essa: não se trata apenas de transformar instituições, mas de transformar nossa relação com a diferença. Afinal, se a loucura é vizinha da razão, como afirma o verso que abre este texto, então a linha que as separa é mais tênue do que gostaríamos de admitir.


E, diante disso, resta uma última pergunta, talvez a mais incômoda de todas: o que fazemos, enquanto sociedade, com aquilo que não conseguimos compreender?



 

 
 

Se algo aí dentro pede sentido…
talvez seja o momento de olhar pra isso com mais cuidado.

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