Cão Orelha e a violência: um olhar psicanalítico
- Mari Armani
- 3 de fev.
- 3 min de leitura
O episódio da morte do cachorro Orelha, espancado por quatro adolescentes, provoca indignação e sofrimento coletivo. Diante de um ato tão violento, a psicanálise não se propõe a justificar nem a absolver, mas a compreender os processos psíquicos e sociais que tornam possível uma passagem ao ato dessa gravidade. Compreender, aqui, é condição para prevenir a repetição.

A adolescência é um momento crucial do desenvolvimento psíquico. Trata-se de uma fase marcada por intensas transformações corporais, pulsionais e identitárias, em que o sujeito precisa reorganizar seus afetos, seus limites e sua relação com o outro. Nesse período, a agressividade tende a emergir com força, pois antigas referências simbólicas da infância entram em colapso, enquanto novas ainda não estão consolidadas. Quando faltam recursos psíquicos para simbolizar conflitos, a violência pode surgir como forma de descarga direta da tensão interna.
Do ponto de vista psicanalítico, o ato cometido contra Orelha se aproxima do que se chama de passagem ao ato. O sujeito não fala, não elabora, não pede, ele age. O corpo do outro torna-se o lugar onde o conflito psíquico é descarregado.
Nesse contexto, o cachorro ocupa um lugar simbólico específico. O animal não é apenas um ser vivo vulnerável, mas também um objeto que pode ser facilmente desumanizado. Ele não fala, não acusa, não impõe limites simbólicos. Isso permite que a agressividade seja projetada sem que o sujeito seja imediatamente confrontado com a culpa. O ataque ao animal revela, portanto, uma falha importante no reconhecimento do outro como sujeito de sofrimento.
A violência em grupo intensifica esse processo. Quando os adolescentes agem juntos, a responsabilidade individual se dilui, o superego enfraquece e o grupo passa a funcionar como uma espécie de corpo coletivo sem lei interna. A agressão pode se tornar um elemento de pertencimento, um laço perverso que oferece identidade e sensação de poder. Nesse cenário, a pulsão destrutiva encontra pouca ou nenhuma barreira.
É impossível analisar esse tipo de ato sem considerar o papel da família na constituição do limite. Na psicanálise, o limite não é entendido como punição, mas como uma forma de auxiliar o sujeito a se estruturar psiquicamente, permitindo reconhecer que seu desejo encontra fronteiras. A família é o primeiro espaço onde essa experiência se inscreve.
Quando a função de cuidado é excessivamente permissiva ou desorganizada, a criança pode crescer sem aprender a lidar com frustração e diferença. Por outro lado, quando o limite é imposto apenas pela violência, pela humilhação ou pelo medo, o que se transmite não é a lei simbólica, mas a força bruta. Em ambos os casos, o resultado pode ser semelhante: dificuldade de internalizar limites e tendência a reproduzir a violência no laço social.
Um aspecto central é a nomeação da agressividade. Famílias que contribuem para a constituição psíquica do limite são aquelas que reconhecem os afetos, inclusive a raiva, mas não autorizam sua atuação violenta. Dizer “eu sei que você está com raiva, mas você não pode machucar” é diferente de negar o afeto ou de incentivá-lo. Quando a agressividade não é simbolizada, ela tende a ser atuada.
Também é fundamental a responsabilização. Minimizar atos violentos, proteger o agressor a qualquer custo ou deslocar a culpa para o outro transmite a mensagem inconsciente de que não há consequência. Sem responsabilização e possibilidade de reparação, não se constrói culpa estruturante, apenas repetição.
A psicanálise não fala em monstros, mas em sujeitos que não conseguiram elaborar simbolicamente sua agressividade. Isso, no entanto, não elimina a responsabilidade ética e jurídica. Ao contrário: responsabilizar é uma forma de oferecer limite onde ele falhou, e de abrir a possibilidade de elaboração psíquica.
O caso de Orelha nos confronta com algo que vai além do ato em si. Ele revela falhas na constituição do limite, empobrecimento simbólico, desumanização do outro e ausência de contenção: familiar, social e psíquica. Ignorar esses sinais é permitir que a violência encontre novos alvos.
Compreender não é absolver. É reconhecer que, sem lei, sem palavra e sem limite, a agressividade deixa de ser conflito e passa a ser destruição.
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