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Como viver as férias sem transformar tudo em obrigação

  • Foto do escritor: Mari Armani
    Mari Armani
  • 25 de jun.
  • 4 min de leitura

As férias costumam ser imaginadas como um período de descanso, liberdade e prazer. No entanto, para muitas pessoas, elas acabam se transformando em mais uma lista de tarefas a cumprir. Viajar para o lugar perfeito, aproveitar cada minuto, organizar passeios, registrar momentos nas redes sociais, descansar adequadamente, praticar atividades físicas, estar presente para a família e ainda voltar renovado para a rotina. O que deveria representar uma pausa frequentemente se converte em uma nova fonte de pressão.


Talvez você já tenha vivido algo parecido. Os dias de férias chegam e, em vez de sentir alívio, surge uma inquietação difícil de explicar. Há uma sensação de que é preciso fazer as férias “valerem a pena”. Quando um dia é passado sem grandes acontecimentos, aparece a culpa. Quando os planos não saem como esperado, surge a frustração. E, muitas vezes, ao final do período, a pessoa retorna ao trabalho cansada e com a impressão de que não aproveitou o suficiente.

Sob a perspectiva psicanalítica, esse fenômeno não está relacionado apenas à organização do tempo ou à falta de planejamento. Ele pode revelar algo mais profundo sobre a forma como nos relacionamos com o desejo, o prazer e as exigências internas que carregamos ao longo da vida. A psicanálise compreende que nem todas as cobranças vêm do mundo externo. Muitas delas são internalizadas e passam a funcionar como uma espécie de voz interior que exige desempenho constante. Mesmo quando não há ninguém cobrando, a pessoa continua se cobrando.

Em termos psicanalíticos, podemos pensar na atuação do superego, uma instância psíquica ligada às normas, valores e ideais que incorporamos ao longo da nossa história. Embora frequentemente associado à moralidade e aos limites, o superego contemporâneo parece operar de uma forma particular: ele não apenas exige que sejamos responsáveis, mas também que sejamos felizes, produtivos, interessantes e realizados o tempo todo. Assim, até mesmo o descanso pode ser capturado pela lógica da performance.

É por isso que algumas pessoas se sentem incapazes de simplesmente não fazer nada. Quando surge um momento livre, aparece a necessidade de preenchê-lo imediatamente com atividades. O silêncio gera desconforto. A ausência de compromissos provoca ansiedade. Como se o valor pessoal dependesse da capacidade de estar sempre produzindo experiências, resultados ou memórias extraordinárias.

Além disso, a cultura atual reforça esse movimento. Somos constantemente expostos a imagens de viagens perfeitas, famílias felizes e experiências memoráveis. Inconscientemente, podemos passar a acreditar que nossas férias também precisam corresponder a esse ideal. O problema é que a realidade raramente acompanha as fantasias de perfeição. Toda viagem envolve imprevistos. Todo descanso inclui momentos de tédio. Toda convivência familiar apresenta conflitos. Quando esperamos que as férias sejam impecáveis, acabamos nos frustrando diante daquilo que é inevitavelmente humano.

Do ponto de vista prático, aproveitar melhor as férias pode exigir justamente o contrário do que muitas pessoas imaginam. Em vez de buscar preencher cada espaço da agenda, pode ser importante criar espaços vazios. Permitir-se alguns dias sem programação rígida. Aceitar que nem todo momento precisa ser especial. Reconhecer que descansar não é uma recompensa que precisa ser merecida, mas uma necessidade legítima.


Também pode ser útil observar quais expectativas estão sendo colocadas sobre esse período. Você deseja realmente fazer determinada atividade ou sente que deveria fazê-la? A viagem planejada atende aos seus desejos ou às expectativas de outras pessoas? A necessidade de registrar tudo em fotos está ligada à vontade de guardar lembranças ou à necessidade de provar que está aproveitando? Essas perguntas ajudam a diferenciar o desejo autêntico das exigências internalizadas.

Outro aspecto importante é tolerar a imperfeição. A psicanálise nos mostra que o sofrimento muitas vezes surge da tentativa de eliminar faltas, limites e frustrações. No entanto, uma vida satisfatória não é aquela livre de imperfeições, mas aquela em que conseguimos conviver com elas. Férias boas não são necessariamente férias perfeitas. São aquelas que permitem experiências reais, com prazer, descanso e também com os inevitáveis imprevistos que fazem parte da vida.

Quando a dificuldade de descansar se torna persistente, vale a pena olhar para ela com mais atenção. Algumas pessoas percebem que não conseguem relaxar em nenhuma circunstância. Outras sentem culpa intensa ao interromper o trabalho, ansiedade diante do tempo livre ou necessidade constante de se manter ocupadas. Em certos casos, o descanso pode despertar sentimentos profundos de vazio, inutilidade ou angústia. Quando isso acontece de forma frequente e interfere na qualidade de vida, a psicoterapia pode ser um espaço importante de compreensão.

O processo psicoterapêutico permite investigar de onde vêm essas exigências internas, quais histórias ajudaram a construí-las e por que o descanso pode ser vivido como algo tão difícil. Mais do que ensinar técnicas para relaxar, a psicoterapia oferece a possibilidade de construir uma relação mais flexível consigo mesmo, na qual o valor pessoal não dependa exclusivamente da produtividade ou do desempenho.

No fim das contas, aproveitar as férias talvez não signifique fazer mais, mas exigir menos de si mesmo. Significa abrir espaço para experiências que não precisam ser extraordinárias, para momentos que não precisam ser compartilhados e para descansos que não precisam ser justificados. Porque, muitas vezes, a verdadeira pausa começa quando deixamos de transformar até o prazer em uma obrigação. 


Caso se identifique, agende uma conversa.




 

 

 
 

Se algo aí dentro pede sentido…
talvez seja o momento de olhar pra isso com mais cuidado.

A psicoterapia é um espaço seguro, sem julgamentos, onde você pode falar, entender e aos poucos transformar.

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