Descobrindo-se autista na vida adulta: E agora?
- Mari Armani
- 18 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
Às vezes, estar no mundo é demais.

O barulho parece invadir cada canto do corpo.
O olhar dos outros exige interpretação constante.
O silêncio se torna uma necessidade vital, um espaço para reorganizar o que está dentro.
“Meu corpo pede pausa.”
“Eu preciso de silêncio para me organizar por dentro.”
Essas experiências, muitas vezes invisíveis para quem observa de fora, atravessam a vida de muitos adultos no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Embora o TEA seja uma condição do neurodesenvolvimento que se manifesta desde a infância, não é raro que seu reconhecimento ou diagnóstico ocorra apenas na vida adulta. Nesse momento da vida, o autismo já não aparece apenas como um conjunto de sinais clínicos, mas como uma forma singular de existir, sentir, perceber e se relacionar com o mundo.
Os adultos autistas frequentemente constroem estratégias próprias para lidar com as exigências sociais e sensoriais do cotidiano. Rotinas rígidas, interesses específicos, necessidade de silêncio, controle ambiental e, muitas vezes, a camuflagem social tornam-se modos de garantir segurança emocional e funcionamento psíquico. No entanto, essas estratégias, embora eficazes, podem gerar intenso desgaste físico e emocional. O esforço constante para “dar conta”, para se encaixar ou para sustentar uma imagem socialmente aceitável pode levar a colapsos, crises de ansiedade e sofrimento corporal.
A literatura psicanalítica contemporânea contribui de forma decisiva para essa compreensão. Jean-Claude Maleval propõe que o autismo não seja concebido como déficit, mas como uma estrutura subjetiva singular, na qual cada sujeito inventa soluções próprias para lidar com o gozo, a linguagem e o laço com o outro. Éric Laurent destaca que o sofrimento autista não decorre do autismo em si, mas da ruptura dessas soluções inventadas, quando aquilo que sustentava a vida deixa de funcionar. Marie-Christine Laznik enfatiza o papel da linguagem e da palavra na constituição do sujeito autista, lembrando que a entrada na comunicação pode ocorrer de maneiras não lineares, mas profundamente significativas.

Na clínica com adultos, essa perspectiva se traduz em escuta e respeito às invenções singulares. Podemos pensar, por exemplo, em A., cuja segurança depende de lógica e previsibilidade e que entra em crise quando seu trabalho exige flexibilidade social excessiva; B., que aprendeu a se adaptar, mas cujo corpo colapsa diante da exaustão da camuflagem constante; ou C., que tinha sua vida organizada em torno de um vínculo afetivo e, após a ruptura, experimenta desorganização profunda e sofrimento. Em todos esses casos, o objetivo do tratamento não é modificar a estrutura do sujeito, mas acompanhar, sustentar e fortalecer suas soluções, ajudando-o a atravessar mudanças sem perder seu equilíbrio.
O diagnóstico do TEA na vida adulta, conforme o DSM-5, baseia-se em déficits persistentes na comunicação social, padrões restritos e repetitivos de comportamento e prejuízo funcional significativo. No entanto, uma avaliação clínica ética precisa ir além dos critérios formais, considerando a história de vida, as estratégias de coping, a camuflagem social e a sensibilidade sensorial. A psicanálise acrescenta uma dimensão essencial ao investigar como o sujeito se organiza, como o corpo expressa o sofrimento e quais invenções sustentam sua existência.
Pode levar uma vida inteira para perceber: não se trata de ser estranho ou inadequado. Trata-se de sentir, pensar e perceber o mundo de um jeito diferente. E isso não é um erro. A sensação de não pertencimento, de não se encaixar, é frequente e exaustiva. Ainda assim, há um desejo de conexão, de compreensão e de participação. Cada esforço revela força, singularidade e um modo próprio de existir.
Viver com TEA na vida adulta implica reconhecer que diferente não significa incapaz. O acompanhamento terapêutico, especialmente a partir de uma perspectiva psicanalítica, busca oferecer um espaço seguro onde o sujeito possa existir como é respeitando seus limites, reconhecendo suas necessidades e ampliando suas possibilidades de ação no mundo.
Em síntese, compreender o TEA na vida adulta exige atenção à singularidade, valorização das invenções subjetivas e reconhecimento do sofrimento que emerge quando essas soluções se fragilizam. A psicanálise, ao se orientar pela ética do sujeito, pela linguagem, pelo corpo, oferece uma escuta que não normatiza, mas sustenta. Assim, a vida adulta com TEA pode ser não apenas um desafio, mas também um caminho de autoconhecimento, autocuidado e construção de modos mais sustentáveis de existir.
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