A vida diante da terminalidade: escuta, presença e subjetividade
- Mari Armani
- há 4 dias
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“Não sei quanto tempo me resta.”
“Tenho medo do que vem pela frente.”
Receber um diagnóstico de terminalidade é mais do que lidar com uma doença: é confrontar a própria finitude. É perceber que o tempo, antes aberto e repleto de possibilidades, se estreita. É sentir que o corpo, antes confiável, passa a impor limites que não podem mais ser contornados. É viver a incerteza de cada instante, a perda gradual da autonomia e o medo do que ainda está por vir.
O corpo sinaliza que deixa de ser apenas instrumento de ação e passa a ser mensageiro do limite e da finitude. Dor, cansaço, fraqueza ou alterações físicas carregam medos, tristeza e, por vezes, revolta, que se traduzem em falas ou pensamentos como:
“Não consigo mais fazer o que fazia.”
“Meu corpo parece estranho, como se não fosse meu.”
“Sinto que já não me reconheço.”
São pensamentos que inquietam e angustiam. E o tempo, agora encurtado, revela um futuro incerto, enquanto o presente se intensifica. Planos e projetos precisam ser revistos ou deixados de lado. A percepção da finitude desperta medo, ansiedade e uma profunda sensação de impotência.
“Não sei como será cada dia.”
“Tenho medo de não ter tempo para dizer o que importa.”
“Queria poder viver sem medo.”
Na psicanálise, Freud nos lembra que a proximidade da morte desperta angústias profundas, muitas vezes antigas, silenciosas e difíceis de nomear. Winnicott, por sua vez, nos mostra que, diante dessas experiências-limite, o sujeito necessita de um ambiente suficientemente bom: um espaço seguro de escuta e presença, capaz de sustentar a fragilidade sem invadi-la.
Isso nos permite compreender que a história vivida, os vínculos, os afetos e a

capacidade de existir e se relacionar permanecem presentes no ser. Enquanto houver escuta, há possibilidade de presença, de significado e de humanidade compartilhada. Mesmo diante da morte, a vida psíquica continua a existir, e o sujeito permanece sujeito até o seu último instante.
O acompanhamento psicanalítico diante da terminalidade não busca curar nem oferecer respostas prontas. Seu papel é sustentar a presença, a escuta e o acolhimento, permitindo que o sujeito se mantenha inteiro, mesmo diante da perda de funções e da proximidade da morte.
A psicoterapia oferece um espaço onde essas experiências podem ser sentidas, acolhidas e pensadas, sem pressa, sem cobrança, sem julgamento. Um espaço onde o corpo é escutado e a angústia encontra lugar para existir.
Aqui, o sujeito continua sendo alguém que pensa, sente, ama e existe, mesmo quando a vida se aproxima do limite.
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