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Você realmente escolheu essa vida?

Foto do escritor: Mari Armani
Mari Armani
6 de out.
4 min de leitura

“E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou...”

Carlos Drummond de Andrade


Quando a rotina silencia, há perguntas que se fazem presentes, pode ser no trânsito, depois de um dia exaustivo de trabalho, enquanto se prepara o jantar ou quando a casa fica quieta depois que todos dormem. “É isso mesmo que eu quero para a minha vida?” “Como cheguei até aqui?” “Em que momento comecei a viver desse jeito?” E talvez a pergunta mais difícil: “Eu realmente escolhi essa vida?”

Essas questões aparecem justamente quando, aparentemente, tudo deveria estar bem. Há trabalho, relacionamentos, filhos, casa, compromissos, contas pagas, planos e uma agenda cheia. A vida segue funcionando, mas, por dentro, pode surgir uma sensação difícil de nomear: a de estar vivendo uma vida que parece adequada, mas que já não produz sentido.


É comum ouvirmos que precisamos fazer escolhas, assumir as rédeas da própria vida e correr atrás dos nossos sonhos. Mas a psicanálise nos convida a olhar para essa questão de maneira menos simples. Afinal, nem tudo aquilo que fazemos conscientemente foi propriamente escolhido por nós.

Desde cedo, somos atravessados pelos desejos, expectativas e valores daqueles que nos cercam: família, cultura, escola, religião, relações sociais e experiências afetivas participam da construção de nossa subjetividade. Aprendemos, muitas vezes sem perceber, o que significa ser “bem-sucedido”, “uma boa filha”, “um bom filho”, “um profissional competente”, “um bom marido”, “uma boa esposa”, “um bom pai” ou “uma boa mãe”.

Algumas escolhas parecem absolutamente pessoais, mas podem carregar desejos que foram construídos a partir do olhar do outro. Escolhemos uma profissão porque era considerada segura. Permanecemos em um relacionamento porque terminar significaria decepcionar alguém. Buscamos determinado padrão de vida porque aprendemos que isso representaria sucesso. Dizemos “sim” quando queríamos dizer “não”, aceitamos responsabilidades que não desejávamos e seguimos caminhos que parecem corretos, embora, em algum momento, algo dentro de nós comece a reclamar.

É nesse ponto que a psicanálise introduz uma questão fundamental: o sujeito nem sempre é plenamente consciente das forças que orientam suas escolhas.

Freud mostrou que o inconsciente participa de nossa vida psíquica e que nossos desejos, conflitos e repetições não se apresentam necessariamente de forma transparente para nós. Podemos acreditar que estamos escolhendo livremente, enquanto determinados padrões inconscientes continuam conduzindo nossas decisões.

Isso não significa que tudo esteja previamente determinado ou que não tenhamos liberdade. Significa que nossa liberdade pode aumentar justamente quando começamos a reconhecer aquilo que, até então, permanecia desconhecido.

Talvez por isso algumas pessoas passem anos dizendo: “Eu não sei por que continuo fazendo isso”. Repetem relações semelhantes, assumem responsabilidades excessivas, têm dificuldade de colocar limites, escolhem sempre o que esperam delas e, depois, sentem culpa por desejar algo diferente.

O problema não está necessariamente em ter feito escolhas diferentes das que faria hoje. Afinal, somos sujeitos em transformação. O que desejávamos aos 25 anos pode não ser o que desejamos aos 40. O que fazia sentido antes pode deixar de fazer sentido agora.

O sofrimento pode surgir quando percebemos essa mudança, mas não nos permitimos reconhecê-la.

Vivemos em uma época que valoriza muito a performance. É preciso produzir, prosperar, cuidar da família, manter relacionamentos, cuidar do corpo, estudar, viajar, estar atualizado e ainda parecer feliz nas redes sociais. Nesse cenário, admitir que algo não está fazendo sentido pode ser vivido quase como um fracasso.

Mas talvez não seja fracasso.

Talvez seja uma pergunta.

“O que, nessa vida que construí, realmente me pertence?”

Essa pergunta não significa abandonar tudo, pedir demissão amanhã, terminar um relacionamento ou mudar radicalmente de cidade. A psicanálise não oferece fórmulas prontas para uma vida ideal. Ela propõe outra coisa: a possibilidade de escutar aquilo que o sujeito diz, inclusive aquilo que aparece de maneira indireta, contraditória ou aparentemente sem sentido.

Por isso, antes de tomar grandes decisões, pode ser importante começar por pequenas escutas.

Observe aquilo que tem se repetido. Em quais situações você sente que precisa agradar? Onde costuma dizer “sim” querendo dizer “não”? O que você faz apenas porque acredita que deveria fazer? Quais desejos você considera “inaceitáveis”, “egoístas” ou “impossíveis” antes mesmo de lhes dar espaço? E, principalmente, o que você tem chamado de escolha quando, na verdade, pode estar apenas tentando corresponder à expectativa de alguém?

Essas perguntas não precisam produzir respostas imediatas. Algumas questões

importantes precisam de tempo para amadurecer.

É justamente nesse espaço que a psicoterapia pode ser importante. Quando a sensação de vazio, insatisfação, ansiedade, culpa ou repetição de situações dolorosas começa a interferir na vida cotidiana, nos relacionamentos ou na capacidade de sentir prazer, procurar ajuda profissional pode ser um caminho de cuidado.

Na psicoterapia de orientação psicanalítica, não se trata simplesmente de descobrir “qual é a escolha certa”. Trata-se de compreender a própria história, reconhecer conflitos, identificar repetições e dar lugar àquilo que foi silenciado. Ao falar e ser escutado, o sujeito pode começar a perceber de onde vêm determinados desejos, medos e escolhas.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “Você realmente escolheu essa vida?”

Talvez seja:

“Depois de tudo o que fizeram de você, o que você deseja fazer de si mesmo?”

Porque escolher a própria vida não significa apagar o passado, romper com tudo ou viver sem limites. Significa, pouco a pouco, poder reconhecer aquilo que é seu e aquilo que foi colocado sobre você.

E talvez uma vida mais própria comece justamente quando conseguimos parar, por alguns instantes, de responder ao que esperam de nós e começamos a escutar aquilo que, silenciosamente, há tanto tempo tenta dizer: “E eu? O que eu desejo?”




 

 
 

Se algo aí dentro pede sentido…
talvez seja o momento de olhar pra isso com mais cuidado.

A psicoterapia é um espaço seguro, sem julgamentos, onde você pode falar, entender e aos poucos transformar.

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Atendimento online e presencial em Barretos/SPWhatsApp: (17) 98225-1161

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Localizado na Rua Maria Osório Franco, 772. Exposição. Barretos/SP

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