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Estou trabalhando enquanto meu filho está de férias: como lidar com a culpa

  • Foto do escritor: Mari Armani
    Mari Armani
  • 25 de jun.
  • 4 min de leitura


As férias escolares chegam e, para muitas famílias, trazem consigo uma experiência silenciosa e desconfortável: a culpa. Enquanto as crianças finalmente têm tempo livre para brincar, descansar e viver uma rotina menos estruturada, muitos pais continuam imersos em reuniões, prazos e responsabilidades profissionais. Entre uma tarefa e outra, surge uma pergunta difícil de ignorar: "Será que estou deixando meu filho de lado?"

Esse sentimento é especialmente comum nos adultos, que frequentemente precisam conciliar as demandas da parentalidade com as exigências de uma vida profissional cada vez mais intensa. Não raro, o pai ou a mãe observa fotos de outras famílias viajando, participando de atividades especiais ou aproveitando longos períodos juntos e sente que está falhando em oferecer ao filho aquilo que ele realmente precisaria. A culpa, então, se instala como uma companhia constante, transformando uma necessidade da vida adulta, o trabalho, em uma fonte de sofrimento psíquico.

Sob a perspectiva psicanalítica, porém, a culpa nem sempre está relacionada a um erro real ou a uma negligência efetiva. Muitas vezes, ela surge do conflito entre a realidade possível e um ideal internalizado de maternidade ou paternidade. A psicanálise compreende que, ao longo da vida, construímos representações internas sobre o que significa ser um "bom pai" ou uma "boa mãe". Essas imagens são formadas a partir das experiências infantis, das expectativas familiares, dos valores culturais e das mensagens sociais que recebemos. Em uma sociedade que frequentemente idealiza a parentalidade e associa amor à disponibilidade constante, muitos adultos passam a acreditar que deveriam estar presentes em todos os momentos importantes da vida dos filhos.

Nesse contexto, o sentimento de culpa pode ser entendido como uma manifestação da distância entre aquilo que a pessoa consegue realizar e aquilo que acredita que deveria realizar. O sofrimento não decorre necessariamente da ausência provocada pelo trabalho, mas da impossibilidade de corresponder a um ideal de perfeição. A psicanálise, especialmente a partir das contribuições de autores como Donald Winnicott, oferece uma compreensão importante sobre esse tema ao questionar a fantasia de que o desenvolvimento saudável de uma criança depende de uma presença parental contínua e impecável. Winnicott propôs o conceito da "mãe suficientemente boa", destacando que o crescimento emocional ocorre justamente em um ambiente no qual existem presenças e ausências, satisfações e frustrações, encontros e esperas.

Isso significa que a experiência de não ter os pais disponíveis o tempo todo não é necessariamente prejudicial. Pelo contrário, quando a ausência ocorre dentro de um contexto de vínculo seguro e afetuoso, ela pode favorecer o desenvolvimento da autonomia, da criatividade e da capacidade de lidar com frustrações. A criança aprende, gradualmente, que nem todos os seus desejos serão atendidos imediatamente e que é possível continuar se sentindo amada mesmo quando os pais estão ocupados ou fisicamente distantes.

Entretanto, para muitos pais, compreender isso racionalmente não é suficiente para aliviar a culpa. Isso acontece porque o sentimento frequentemente está conectado a questões mais profundas da própria história emocional. Algumas pessoas carregam experiências de abandono, carência afetiva ou falta de disponibilidade emocional por parte de seus cuidadores e, sem perceber, tentam oferecer aos filhos aquilo que sentiram não ter recebido. Outras foram educadas sob padrões extremamente rígidos de desempenho e passam a exigir de si mesmas uma excelência impossível também no exercício da parentalidade. Nesses casos, a culpa atual pode estar funcionando como um eco de conflitos antigos que encontram na relação com os filhos um novo cenário para se manifestar.

Diante disso, uma atitude importante é diferenciar as necessidades reais da criança das exigências idealizadas que os pais impõem a si próprios. Nem toda tristeza da criança indica sofrimento emocional significativo. Nem todo pedido de atenção significa que ela está desamparada. Muitas vezes, os filhos conseguem lidar melhor com a ausência temporária dos pais do que os próprios pais imaginam. O que costuma ser mais importante para o desenvolvimento emocional infantil não é a quantidade absoluta de tempo compartilhado, mas a qualidade da presença quando ela acontece. Um momento de escuta genuína, uma conversa antes de dormir, uma refeição compartilhada sem distrações ou um interesse verdadeiro pelo que a criança viveu durante o dia podem ter um valor emocional muito maior do que horas de convivência marcadas pela preocupação, pelo cansaço ou pela culpa.

Também é importante observar uma armadilha frequente: a tentativa de compensar a ausência através de permissividade excessiva, presentes ou concessões constantes. Quando a culpa se torna intensa, alguns pais passam a flexibilizar limites ou a oferecer recompensas materiais na tentativa inconsciente de aliviar seu desconforto emocional. Embora essa estratégia possa gerar um alívio momentâneo, ela raramente resolve o conflito interno e pode dificultar a construção de uma relação baseada em segurança e consistência.

Quando a culpa se torna persistente, desproporcional ou começa a comprometer o bem-estar emocional dos pais, a psicoterapia pode ser um recurso importante. Sentimentos recorrentes de inadequação, ansiedade intensa relacionada à separação dos filhos, necessidade constante de compensação ou uma sensação permanente de estar falhando podem indicar que existem conflitos emocionais mais profundos merecendo atenção. No processo psicoterapêutico, a pessoa tem a oportunidade de compreender a origem dessas cobranças internas, reconhecer os ideais que sustentam seu sofrimento e construir formas mais realistas e saudáveis de exercer a parentalidade.

A psicanálise nos convida a abandonar a busca por uma perfeição impossível e a reconhecer algo fundamental: os filhos não precisam de pais impecáveis. Precisam de pais reais. Pais que trabalham, que se cansam, que enfrentam limitações e que nem sempre conseguem estar presentes em todos os momentos, mas que oferecem afeto, disponibilidade emocional e interesse genuíno quando estão juntos. Muitas vezes, a culpa faz com que os pais enxerguem apenas aquilo que acreditam estar faltando. No entanto, é possível que os filhos estejam percebendo algo muito mais importante: a presença de alguém que, mesmo diante das exigências da vida, continua amando, cuidando e construindo vínculos significativos todos os dias.

Como sugere a canção Tocando em Frente, a vida é feita de travessias, não de perfeições. Talvez a parentalidade também seja assim: um caminho construído entre presenças e ausências, acertos e dúvidas. E, muitas vezes, o que os filhos mais precisam não é de pais que estejam disponíveis o tempo todo, mas de pais que sigam caminhando ao lado deles, de forma suficientemente boa e verdadeiramente humana.


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